Um amigo publicitário tenta livrar a barra da tal propaganda odiada por mim. Detalhe, eu só tinha ouvido elogios à tal peça. "Tão bonitinho", diziam. Nem sempre concordam comigo mesmo...
Mas vale ler o comentário e minha resposta no final:
Comentário de Tomás Bueno:
Fala Adrualdo, eu sempre leio teu blog e gosto bastante do que você escreve e justamente por isso raramente comento. Dessa vez decidi comentar porque acho que você sobrecarregou o papel da publicidade. (talvez eu possa estar sendo tendencioso por ser publicitário, mas tentei ser o mais imparcial que pude).
Esse anúncio não sugere a idéia de que o telefone substitui a presença física, mas se coloca como facilitador na hora de lidar com a distância que vai existir, inevitavelmente, após a separação. Não estou falando de pais ausentes, mas existe uma certa privação inerente a situação. Antes a criança tinha o pai e a mãe em casa todos os dia e agora não é mais assim. Reforçando a minha opinião lembro que o ponto alto do anúncio é quando o pai atende o telefone fazendo surpresa pra filha por estar em sua aula de balé, ou seja, nada substitui a presença física.
Quanto às questões legais, lutas na justiça e afins, acredito que isso não faz parte do papel da publicidade. Concordo que ver essa na situação na TV a torna mais aceita em nossa cultura, mas acreditar que se a propaganda não mostrasse, tudo isso estaria resolvido é inocência. Existem casos que a propaganda sugere uma mudança no comportamento da sociedade, mas nesse caso ela só ilustra uma situação que já é parte do nosso comportamento.
Por fim, quanto à falta de preocupação da propaganda com a questão social (estou amplificando a questão moral que você citou), concordo que é triste, e como publicitário me sinto mal por isso. Mas a verdade é que essa falta de preocupação não é da propaganda, mas sim das empresas. A propaganda é reflexo do mercado, e não um sistema alheio a isso. Não eximo a publicidade de culpa, mas chamo a seguinte reflexão: a propaganda é a grande culpada do consumismo (ignorando questões morais para vender o produto), ou o consumismo foi incentivado pelo nosso sistema capitalista como premissa para desenvolvimento da nação. (lembro de um discurso do Lula quando começou a crise no ano passado falando que a população deve continuar comprando pois o Brasil estava bem preparado par a situação).
Publicidade é uma ferramenta, quem a usa é que define suas conseqüências sociais.
Respondo:
Diga lá meu querido!
Talvez eu tenha me irritado demais por causa do meu contexto, sabe? Mas uma coisa não se pode negar. O "mote" da propaganda só faz sentido na ausência. Esse é ponto central.
O problema é que o amigo admite a ausência como inerente à separação, e eu não. Não é óbvio que pais que vivem separados estão condenados a ver menos seus filhos. Não há uma relação direta. Essa idéia de que a separação envolve uma ausência inerente é só um preconceito. A ausência pode haver quando os pais viajam muito, por exemplo. Ou quando trabalham muito. A ausência pode ocorrer mesmo com pais morando juntos.
Se os pais se separam e mantêm uma visita diária, revezam-se na escola, alternam os lares em que a criança dorme e estão sempre em contato, a separação não indica uma ausência inerente. Pode até ser comum a ausência, mas ela só depende os pais e não da situação. Outros fatores precisam estar presentes, mas a separação por si só não precisa levar à ausência.
Então, no caso, a situação só faz sentido porque o pai sai de casa. A menininha é muito clara: "Você não vai morar mais com a gente Papai...". A parte em que ele vai vê-la no balé é só a prova da sua ausência. A menina tem que se contentar em ligar pro pai e vê-lo depois do balé, pois ela não "mora mais com ele", coitada.
Mas concordo que minha visão é bem crítica dessa peça, que, como você demonstrou, pode até ter uma interpretação mais positiva. Se os pais precisam ficar algum tempo sem ver seus filhos o telefone serve como aproximação, o que daria um caráter positivo à propaganda.
Quero esclarecer uma coisa importante. Sou absolutamente contra essa história de supervalorizar o papel da publicidade com relação ao consumo. Como disse, sou contra a censura e não acho que a publicidade seja vilã. Pelo contrário, a publicidade está inserida na liberdade de manifestação e como tal deve ser tratada. Essa conversa de limitar publicidade não é comigo. Admito a proibição à propaganda enganosa ou abusiva, na forma como hoje o direito as regula. Mas limitar propaganda de produtos legais é só hipocrisia.
Também não acho que a publicidade tem que ter um "papel social" ou que vai mudar a cultura. Ela tem é que vender produtos com criatividade, só isso. Papel social é coisa para governos. Então jamais imaginei que a publicidade pudesse mudar qualquer coisa. Isso não me impede de identificar preconceitos e clichês numa peça de publicidade e, nesse sentido, criticá-la, entende? Então, que fique claro, não tenho nada contra a publicidade em si, só me irritei com essa peça por ser rasteira com relação ao conteúdo moral que representa.
No mais, valeu pelo comentário qualificado. E você é fera!
Obrigado amigo.
3 comentários:
Fico lisonjeado por ganhar um post hehehe. Bom, mas de fato discordamos na premissa de tudo. Eu não consigo imaginar uma separação onde a criança vá ter tanto a presença do pai e da mãe como tinha antes, por pouco que ela perca, ela continua perdendo. Colocando isso a parte, esse anúncio só reflete a realidade para a maioria dos divórcios, mesmo que alguns poucos consigam que a criança não sofra (acho até que pode ter conseqüências positivas para a criança se os pais lidarem bem com a situação). Mas concordo completamente com você no que diz respeito à separação não ser a única responsável pela ausência dos pais.
Abraço Adrualdo.
Oi, Adrualdo! É a primeira vez que comento no seu blog (e sou Catarina, aquela pessoa do doutorado da ufpe e que encontrou você no plaza essa semana) - Este assunto me chamou muita atenção. Digo isso porque a convivência familiar é o tema central de minha tese e assim, pelo que venho estudando e, também, por minha vivência pessoal (sou mãe separada e tenho certeza de que o equilíbrio emocional de minha filha depende da forma como ela convive comigo e com o pai dela), a abordagem publicitária também me incomodou.
É muito difícil ir de encontro a certas convenções sociais. Uma entre tantas razões que encontro para admirar você, é a forma como você age com relação ao seu filho. A sua dedicação e prioridade, no entanto, não é comum para a maioria dos pais separados que, muitas vezes, acham bom manter a paternidade assim, à distância. Seu filho tem sorte. A sorte que deveriam ter outros filhos. E, eu acredito que a publicidade responsável deve ter sim, um viés pedagógico, além de apenas cumprir o objetivo de vender qualquer coisa. Se queriam enfatizar a ausência, poderiam ter escolhido outro motivo (viagem, quem sabe) para que o telefone aproximasse o pai da filha. Da forma como foi feita, ela serve de suporte para que, na prática, as pessoas continuem vendo no pai, a pessoa que se afasta.
Outra publicidade que me aborrece muito é a que passa no rádio, com uma mulher que prega a geladeira na parede para forçar o marido a comprar um ar-condicionado - é a mesma coisa. A lei mudou mas, a imagem fica - a mulher ainda é aquela relativamente incapaz, dependente do chefe da família. E, com a ajuda da lavagem cerebral da mídia, isso dificilmente vai mudar.
Catarina,
Que bom te ver de novo.
Agradeço demais sua leitura e comentário.
Você tem toda razão. A lei mudou, mas a cultura, ainda não.
Abraços!
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